sábado, 2 de dezembro de 2023

Acredita Francisca Running

 A vida dá muitas voltas e nós crescemos a cada volta que ela dá! 

É sobre ACREDITAR que aqui vos falo hoje. Que, de facto , é aquilo que rege a minha/ nossa vida, pois se acreditarmos efectivamente conseguimos. E às vezes não acreditando, basta haver uma pessoa que acredite por nós e nos leve a acreditar também!!

Assim tem sido na vida , como na corrida. 

Eu correr 5km? Se me dissessem isso há 2 anos e meio atrás eu ia rir-me muito. Fazer 27km em trail? Era a piada do momento!! Acordar às 5h40 para ir treinar? Pronto, aí já quem inventasse essa estaria em delírio grave! 

Pois é, mas tudo isto se tornou verdade, e não se trata só de correr, trata-se de alegria, bem estar, superação e terapia. 

E desenvolvimento pessoal. 

Tem sido um percurso bonito, de aprendizagem constante , onde tive muitas pessoas que me ajudaram e a quem estarei sempre grata .

Amanhã corro pela primeira vez com uma camisola que me diz muito, no dia internacional da deficiência. 

Conto somar muitas corridas com ela. 

Não é uma equipa de atletismo, é um grupo de literal amor à camisola! 

A ti Miguel, obrigada é muito pouco por tudo e por tanto! Só nós sabemos o amor que nos une ❤️

Aos meus sogros, pais, cunhados/as,  são vocês que tornam possível! 

Às minhas amigas e irmã que acham que eu sou a Rosa Mota, #sqn , obriga pelo boost de motivação e auto estima que às vezes preciso para continuar mesmo sabendo perfeitamente que estão enganadas! 

À equipa Fisioactive Team, obrigada pelo crescimento , aprendizagens e oportunidades! Foi um percurso bonito e enriquecedor. 

À Rita e ao Pedro, posso esquecer quem me magoa, mas nunca quem me levanta! 


A minha camisola não tem clube, pelo que qualquer pessoa pode, se quiser,  algum dia,  correr com ela, desde que seja com amor ❤️





terça-feira, 12 de abril de 2022

Escola - A perpetuação da desigualdade de oportunidades

 



A escola não é inclusiva. E não o será enquanto houver segregação. Tem leis que mascaram de inclusivo um sistema que não olha com bons olhos para as crianças com dificuldades ou necessidades especiais e que as segregam em turmas por categorias de bons e maus alunos. Isto acontece em todas as escolas. Os bons alunos são concentrados todos nas mesma turma, formando-se assim turmas de excelência onde ensinar motiva o professor e tudo conspira a favor do sucesso escolar. Os maus alunos, por questões comportamentais ou por dificuldades de aprendizagem ficam todos segregados na mesma turma. Ensinar é frustrante, aprender não tem graça. Comportamento gera comportamento. Aos olhos dos professores estes alunos são todos iguais, não querem aprender, são mal educados, imaturos e “não vão longe” nas aprendizagens e no percurso escolar. A perspetiva é de que ali, não dá para mais. O ambiente de desinteresse, desordem e desistência cria-se facilmente e não há equilíbrio.

As crianças das turmas de excelência interiorizam que são “os bons”, superiores, de outro nível, e assim são ensinadas a olhar para si. As “outras crianças” perpetuam as dificuldades, os comportamentos menos adequados e assim se mantêm em desvantagem e se perpetua uma sociedade desigual, cuja formação ocorre desde a infância.


Sou da opinião de que não teremos de ser todos “doutores”, nem é disso que se trata aqui. O que acredito é que a crianças com dificuldades não deixaria de as ter só por integrar uma turma mais equilibrada, mas talvez ajudasse na sua concentração, motivação e consequente maior sucesso. A criança com comportamento desafiante talvez não deixasse de o ter, mas talvez se fosse equilibrando um pouco mais e assim aprendendo a saber estar de forma mais adequada dentro do contexto escolar e consequentemente nas outras vertentes da sua vida.

Não posso assim concordar que a escola seja inclusiva, e embora às vezes até consigamos encontrar alguma vontade em melhorar, não há recursos humanos e físicos.

A escola é a perpetuação de uma sociedade desigual. Há, como em todos os casos, exceções. Mas não são regra. Falo por experiência própria. E não deveria ser preciso sorte para se encontrar um bom professor.

 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Diagnóstico não dita o futuro!


 



Já há muito que não escrevia aqui, hoje senti necessidade. 

Senti necessidade porque este cantinho que é a página Acredita Francisca além de ser um espaço de partilha do nosso dia a dia e desmistificação do que a trissomia 21, é também o sítio onde partilho as nossas conquistas mas também as frustrações. E não faz sentido pintar tudo de cor de rosa porque sabemos que a vida real não é assim. 

É por isso que hoje partilho convosco que às vezes não sei se sou eu que coloco expectativas muito elevadas quanto às potencialidades e ao futuro da Francisca ou se realmente a sociedade ainda tem muito que evoluir. E se esta evolução ainda não aconteceu nos profissionais de saúde que lidam diretamente com crianças/pessoas com necessidades especiais, sejam elas quais forem,  então estamos muito longe do que é realmente uma sociedade inclusiva. 

Hoje, na  segunda consulta de psicologia de desenvolvimento, sendo que a primeira foi há dois anos atrás, a psicóloga começou por querer fazer um apanhado da situação atual da Francisca. 

Fui de coração aberto, como sempre, e referi então as especialidades médicas pelas quais a Francisca é acompanhada e qual a intervenção atual no âmbito da estimulação cognitiva.

 Na conversa referi ainda o que já vos contei aqui, que foi no íncio da pandemia há um ano atrás, com algum choro e ainda alguma dor à mistura, que acabei por aceitar e encarar de frente as dificuldades da Francisca, sabendo que elas iriam fazer parte do seu  percurso, a par das conquistas, tal como acontece com qualquer criança, qualquer pessoa. 

O assunto seguinte foi a entrada na escola em setembro e foi aí que eu deixei de falar. Foi me dito que eu iria chorar ainda muitas vezes, porque o sistema de ensino não está preparado ainda para ser verdadeiramente inclusivo e que eu iria ter de estar muito atenta. Concordo. 

De seguida foi me dito que o importante é que ela aprendesse o essencial, a ler e a escrever porque depois tinha de ser o mais autónoma possível para integrar um emprego protegido. Que haveriam conteúdos que, portanto, não iam ter interesse nenhum para ela.

Eu ainda tentei explicar que ela não tinha de aprender o mínimo mas sim tudo quanto lhe for dado e ela for capaz de apreender, como qualquer outra criança. Disse-me que sim, mas que o mais importante era que ela tivesse acompanhamento nos intervalos, que era aí que ela ia ser feliz por isso convinha ter alguém a vigiar e a garantir essa felicidade. Até porque da sala de aula, ela não ia gostar. De referir que esta profissional não fez nenhuma avaliação à Francisca na consulta e a única pessoa que falou fui eu. 

A questão aqui não é o que a Francisca vai ou não fazer no futuro, porque isso ninguém sabe e seja qual for o seu futuro das minhas filha, eu só quero que seja digno. A questão aqui é ditar o futuro de uma criança pelo diagnóstico que tem. Aprender o mínimo, ser feliz e ter um emprego protegido para ganhar algum.  E porquê? Porque tem Síndrome de Down. Não aceito, nem nunca vou aceitar. 

A escola dá bagagem e é fundamental. As aprendizagens não podem ser as mínimas. E a bagagem que a escola dá, a par da educação familiar, é a preparação para a vida, a capacidade de critica, a capacidade para gerir um conjunto de situações do dia a dia, a capacidade para estar integrado, a capacidade para ser capaz (desculpem a redundância) para viver em pleno exercício de direitos e deveres. 

Não falo portanto de canudos, de status, falo sim do direito que a minha filha tem, e por esse sim lutarei, de ter as mesmas oportunidades de aprendizagem e de vida que qualquer outra criança. 

Se já começa assim não me verão as lágrimas mas sim as garras. 




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Ah e tal o confinamento...










É um caos. 


E em casa com elas todo o dia? 

É de fugir!


E a escola online?

Serve para eu aprender umas coisinhas!


E quando a Francisca pede 20 vezes para ver o Lucas Neto?

Cedo 10. 


E aquele material que a prof. de EV pede e tu além de não teres em casa não há nada aberto onde comprar?

Não  há-de reprovar por isso. 


E aquele berro que os vizinhos te ouviram a dar às miúdas?

A colega da CPCJ ainda não me ligou...


E como te sentes no fim do dia?

Sem energia. Deitamo-nos juntas e abraço-as, com o coração a transbordar de amor! 












terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Afinal, curar o quê?












Foi em março de 2020, aquando do confinamento, que comecei a perceber algumas dificuldades da Francisca e comecei a perceber que havia algo mais a trabalhar. Tudo o que fiz para trás não duvido que foi bem feito mas senti que ela precisava de uma intervenção diferente. 
Hoje sinto que mudei no momento certo, atualmente está com apoio de psicomotricista, terapia da fala, terapia ocupacional, fisioterapia e infantário. E embora isto ainda possa parecer muito aos olhos de uma mãe "típica",para mim é o cenário perfeito. Retirou de mim o peso que decidi carregar por 5 anos de ser responsável única pelo desenvolvimento da minha filha (mais uma vez, sem qualquer arrependimento).

Nestes últimos seis anos foi acontecendo de forma gradual algo crucial: a plena aceitação de que a minha filha tem uma condição genética que lhe trouxe dificuldades cognitivas e que a ilusão da "cura" é utópica. E afinal curar o quê? Ela não é doente, não é limitada (quem é que definiu os limites?) é como é e é desta forma que eu, a família e a sociedade a devemos aceitar. 
Consegui neste últimos 6 anos a evidência de que as crianças com dificuldades cognitivas ou com alguma deficiência são capazes de tudo, precisam de um pouco mais de investimento, um pouco mais de tempo e um pouco mais de paciência. 
Aprendi que a frustração é um problema meu e que nunca poderei deixar que seja o dela. 

Cada mãe/pai deve, com equilíbrio, encontrar o seu caminho. Eu encontrei o meu. 

Passados 6 anos... sempre estive feliz, mas nunca tão tranquila! 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Os dias, os anos...que se seguiram








7 dias para os 6 anos!



No dia 15 tivemos alta. Pedi muito para ir para casa.

Era domingo, não haviam as vacinas que normalmente os bebés tomas após o nascimento e portanto ficamos com o compromisso de que voltaríamos no dia seguinte para ela as tomar. 

Informamos a família de que íamos voltar. Uma das minhas cunhadas, que estava a par de tudo, tinha preparado na minha casa o nosso regresso e a família esperava-nos. Não sabiam de nada. 

No caminho liguei para a pediatra que já acompanhava a Matilde e em quem confiava plenamente. Pedi-lhe por favor que visse a Francisca naquele dia, que a pudesse observar e que com o seu olho clínico pudesse dar o seu parecer. Estava marcado para as 18h. Tinha de "despachar" a família até lá porque se dissesse que a ía levar a uma consulta ia causar alarido. 

Todos nos receberam felizes e com carinho, sem imaginar o sufoco que vivíamos por dentro. 

Às 17h30 saímos de casa na esperança de que a Dra C. nos ajudasse, e ajudou muito. Disse-nos que pela sua avaliação poderia haver trissomia ou hipotiroidismo congênito, para aguardarmos com calma e que quer numa situação ou outra iria correr bem porque, nomeadamente no caso da trissomia, só conhecia histórias felizes. Deu-nos a conhecer alguns blogs, aconselhou a contar à família apenas quando houvessem certezas e disponibilizou-se para qualquer ajuda. Detetou ainda um sopro no coração que não lhe pareceu nada significativo e que iria acompanhar. 

Regressamos, e a meio do caminho recebemos uma chamada da irmã mais velha do Miguel, que nos foi visitar mas nós não estávamos em casa. Dissemos que fomos sair e ela achou que estávamos loucos! 

Nesse dia à noite notei que a Francisca ficava cianosada na zona da boca em alguns momentos e por conselho de uma amiga no dia seguinte, quando a Francisca foi tomar as vacinas, partilhamos esta situação com a pediatra que nos aconselhou a ir à urgência. Como já referi noutras publicações, a Francisca ficou internada para observação devido a um problema cardíaco e foi durante esse internamento, ao 6º dia de vida, que tivemos a confirmação: Trissomia 21 por mosaico. 

O Miguel ainda alimentava em si a possibilidade de ela não ter nada e custou-lhe mais; eu já quase não tinha dúvidas, já tinha lido muito, já tinha procurado terapias, falado com uma amiga que trabalha na área da deficiência e que me tinha acalmado o coração, portanto para mim já não foi um choque. 


Passados 6 dias tivemos alta e eu saí com força. Na verdade o que me movia era a vontade de combater a trissomia, quase uma ilusão (muito errada) de cura. Estava disposta a fazer de tudo para que ela não tivesse nenhum handicap. Li muito, conversei muito com outra mãe, muitas pessoas se disponibilizaram para me ajudar e eu estava convicta de que ia correr bem. 

Há muito quem fale de um processo de luto do bebé idealizado nos 9 meses de gestação e que após um diagnóstico como este é inevitável que se reformule sonhos e perspectivas para aquele "novo" filho. Eu passei algumas fases do luto, nomeadamente as questões do "porquê eu", o choro, a revolta, o desfazer-me de todas as roupas de grávida, mesmo as que podia continuar a usar e das quais gostava, Durou pouco tempo este processo mas sem vergonha assumo que passei por ele...

Aos dois meses e meio fomos com ela a Madrid, fazer formação do método Doman para pais e a avaliação para que pudéssemos logo começar a implementar a estimulação precoce intensiva que duraria até aos 6 anos de idade. 4 dias intensos, de muita aprendizagem e de muita esperança no coração. 

Seguiram-se 5 anos de terapias, preparação de material ao fim de semana, aplicação de exercícios diários feitos por mim e por todo um conjunto de pessoas que acima de tudo souberam respeitar as minhas decisões e alinharam comigo em prol do desenvolvimento da Francisca! Foram milhares de horas de investimento que estou convicta de que valeram a pena. 



                                                                                                                  

                        

                                                            



                                                            


                                                        



                                                        


                                                        




Muitas conquistas, muitas frustrações e uma obsessão diária em não falhar com nada. 

Nesses 5 anos mudamos de casa, mudamos de terapeutas, aprendemos a ser humildes e a pedir quando precisamos de ajuda, criamos este pequenino blog, ajudamos outros pais, outros pais nos ajudaram. Os amigos de verdade ficaram connosco, conhecemos novos,  perdemos alguns que não entenderam as nossas escolhas e não souberam lidar com as nossas decisões, fomos apreciados e criticados...  Entre sentimentos de culpa por achar que poderia fazer mais, vontade de desistir de tudo, ataques de pânico... entre ajudas preciosas e desajudas que mais tarde percebi que foram o melhor, chegamos a 16 de março de 2020 convictos de que tudo estava certo e era suficiente porque já nos parecia tanto...



                                          




                                           


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Era minha, eu amava-a, tivesse ou não trissomia 21

 





Daqui a 9 dias, 6 anos. 

Devem estar a perguntar-se porque estou a relembrar todas estas memórias. Os seis anos são especiais para nós, logo irão perceber porquê. 


Dia 14 de fevereiro de 2015. Dia dos namorados!

Acordamos, o Miguel chegou e pouco depois começou a ronda dos pediatras. Veio primeiro uma interna, observou, auscultou, observou, auscultou... saiu. Volta passado instantes com mais duas pediatras e observaram-na novamente dos pés à cabeça. 

A dada altura comecei a não achar normal e perguntei se estava tudo bem. A resposta veio a seguir, da forma pouco humana que já sabem. Havia suspeita de trissomia 21 e só com análises teríamos certezas, podendo ter de esperar mais de duas semanas. 

 O meu coração parou, o mundo desabou, as lágrimas não paravam de escorrer pelo rosto. As perguntas vieram... "Como é que é possível?" "Porquê nós?". Lembro-me de pensar que não merecíamos o que nos estava a acontecer, mas a dor que sentia não era por mim, era por ela! Todos os pais desejam que os filhos sejam saudáveis e que possam ter uma vida feliz, sem dificuldades significativas. Atrevo-me a dizer que todos os casais que pretendem ter filhos perspectivam uma vida tranquila, mágica, no mínimo uma vida que corre num percurso "normal". 

As pediatras saíram 2 minutos após terem-nos dado a suspeita da trissomia e logo de seguida vem a enfermeira ensinar-nos a dar banho. Mas alguém julgava que eu estava capaz de ouvir o que quer que fosse que ela tivesse para me ensinar? Tive que lhe dizer que não conseguia. 

Ao mesmo tempo que chorava, abraçava e prometia à Francisca que ia cuidar o melhor possível dela, e que ia fazer os possíveis e impossíveis para ela ser capaz de tudo aquilo que ela quisesse...  Lembro-me de querer tanto sair dali, estar no meu canto, abraçar o Miguel, conversar do que quisesse sem ter outras pessoas que nem conhecia a ouvir.... 

Não contamos aos nossos pais e a quase ninguém, queríamos ter certezas para evitar que se preocupassem. Contamos a uma irmã do Miguel, à minha irmã e a uma das minhas melhores amigas. Queríamos ter certezas para evitar que se preocupassem. Foram o nosso apoio nos três dias que se seguiram, ouviram e sentiram a nossa angústia, choraram connosco.

A noite chegou, estava cansada, adormeci cedo. Passado um pouco a Enf. C., que assistiu ao parto , um anjo, veio conversar comigo, dar-me alento, contar-me exemplos que me encorajaram e dar-me um abraço. São atitudes que nunca se esquecem e que não têm preço! 

Voltei a adormecer e a resposta para a minha pergunta do "porquê eu" começava a surgir, foi porque Deus e ela nos escolheram e ambos achavam que íamos estar à altura!


















terça-feira, 2 de fevereiro de 2021



11 dias para os 6 anos...


A Francisca nasceu as 13h05. Por volta das 14h30 estávamos na enfermaria.


A enfermeira parteira suspeitou da trissomia logo após o nascimento, chamou o pediatra que não veio e pediu às colegas para estarem atentas a nós.  A validão da suspeita teria de ser dada e comunicada por um pediatra, que mesmo assim só com analises complementares é que podia confirmar ou não a  existência de uma anomalia genética. 


A esperança de que ia viver a maternidade em pleno crescia a cada minuto dentro de mim. Quando a olhava, tão serena, o meu coração enchia-se de felicidade e de paz. Sentia que agora, com mais maturidade e sem nada lhe faltar, ia viver um romance sem fim. 


Eu ligava aos meus, feliz por tudo ter corrido bem e radiante por ter tido um parto tão fácil, foram nem duas horas em trabalho de parto. (Acho que Deus doseou um pouco o sofrimento e deixou para depois)

Como não levei pontos, andava lindamente, sentava-me e fazia tudo, as mães que estavam comigo diziam que se soubessem que iam estar como eu umas horas depois do parto, arriscariam a ter outro filho!  

Ao final da tarde eu quis ir à casa de banho e a enfermeira de serviço que numa abordagem anterior foi pouco empática, desta vez disse-me que poderia ir descansada, que ficava com ela ao colo porque gostava muito de olhar "para esta menina". Inocente pensei: "a miúda é mesmo bonita, logo as enfermeiras que vêm tantos bebés, esta até a quer pegar ao colo a observá-la".  

Ela comia, e dormia... comia e dormia... 

Às 22h uma outra enfermeira veio junto de mim e lembrou-me que era hora de dar mama. Disse-me que ficaria ali para ver e para me ajudar se fosse  necessário. 

Perguntou-me a determinada altura se eu tinha feito lá o rastreio bioquímico, rapidamente lhe respondi : "Não, porquê?". Ela disse que nada, que a minha cara não lhe era estranha. Resposta válida para mim, assunto arrumado. 

Na verdade a enfermeira veio ver a Francisca a mamar porque as crianças com trissomia 21 têm dificuldades na sucção devido à hipotonia que lhes é característica.Por acaso não era o caso da Francisca. A questão do rastreio terá sido ou para consulta ou para perceber se foi "falha" do hospital.


Dormi serena essa noite, sem poder imaginar o que aí vinha... 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

 




Daqui a 13 dias, 6 anos. 

O nascimento... 

Apesar de um ou outro contratempo, vivi a gravidez  de uma forma serena. 

O parto foi programado, provocado, às 38 semanas. Estava marcado para o dia 13 a nossa admissão às 09h. 

Dormi mal nessa noite, estava ansiosa porque sabia que no dia seguinte ia começar uma nova aventura na minha vida.

Eu não sabia que a Francisca tinha trissomia, só soube no dia a seguir ao parto, mas eu sentia que o que estava a viver não era bem a realidade. Não encontro palavras para descrever o que sentia, estava feliz mas havia uma barreira. Terá sido instinto maternal? Terá sido pressentimento? Não sei, como disse não consigo descrever nem compreender muito bem. Quando ela nasceu e a puseram nos meus braços o meu coração encheu-se de amor, mas continuava a haver ali um bloqueio, como se ela ainda não fosse totalmente minha. 

Levaram-na para uma sala onde aguardou cerca de 30 minutos por um pediatra que não chegou...porque "amanhã via-se" ... 

Aí ela regressou para junto de mim.  Quando a revi tive um pensamento que eliminei no mesmo segundo em que veio: de que havia algo de errado com ela. 

E seguimos para a enfermaria. O meu amor por ela crescia a cada minuto, aqueles bloqueios disseminavam-se e a vinculação tornava-se cada vez mais forte, 

Eu estava realmente feliz, sem mais. 

Feliz, simplesmente. 

Foi para mim a sexta-feira 13 mais mágica da história. 


                    

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

As novas terapias





Em Maio vim cá falar-vos que iria dar uma reviravolta naquilo que eram as terapias da Francisca.

Hoje vim dar-vos o feedback.

Cada filho tem a sua especificidade e se hoje achamos que o caminho que seguimos é o certo, amanhã tudo muda, as suas necessidades, as estratégias, o caminho a traçar. 

Para mim não foi fácil mudar a intervenção, fazer o corte com o trabalho diário de 5 anos consecutivos, no qual eu acreditei piamente e que tantas pessoas envolveu. 

Não tenho qualquer dúvida que todo o trabalho do método Doman valeu a pena, que toda a ginástica diária que eu fazia para tudo se encaixar teve frutos, que valeu cada lágrima, cada noite mal dormida, cada hora gasta a preparar material. 

Hoje  a Francisca tem um vocabulário muito extenso, boa capacidade física, pouca hipotonia, muita autonomia. Não duvido, como nunca duvidei, que aquele trabalho valeu a pena. 

Mas senti que faltava algo, que havia áreas em que estava muito aquém do que seria esperado e quando me apercebi disso tive que repensar. 

Tomei a decisão de parar o método e optar pelo acompanhemento de uma técnica de reabilitação psicomotora. Com esta intervenção senti que foi criada uma sinergia entre mim, a técnica, a fisioterapeuta e a educadora. Passei a ficar desperta para coisas fundamentais que até então desvalorizei ou  simplesmente me passavam ao lado. 

Eu tenho duas, trabalho, sou dona de casa e existo! Além disso não sou técnica, não sei o que é ou não suposto a Francisca ter adquirido. Precisava de ter alguém comigo capaz de avaliar isso e definir estratégias e atividades que eu pudesse desenvolver para que a Francisca consiga superar as suas dificuldades. E assim tem sido desde Maio. A Francisca já evoluiu em muitas áreas, como no grafismo, pega do lápis, compreensão, pintura, começou a introduzir a leitura e a matemática. Todas as atividades me fazem sentido e ocupam no total 30/40 minutos do meu dia. Tudo resto é  realizado ao longo do dia nas tarefas  rotineiras. Manteve a fisioterapia duas vezes por semana, começou agora terapia da fala, tem uma hora de terapia  por semana com a psicomotricista em casa e o seu acompanhamento sempre que necessário, e uma educadora que se predispôs a colaborar desde logo e que está a trabalhar em consonância com todas as estratégias delineadas. 


Uma reflexão para os pais:

Quando nos dizem que os nossos filhos estão muito bem desenvolvidos  e para não nos preocuparmos temos que questionar se isso é baseado naquilo que a pessoa esperava deles dado o diagnóstico ou se é baseado nas suas reais potencialidades e naquilo que é possível que consigam atingir. 


uy

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A nossa ida ao programa da Julia










É sempre com algum aperto que se revivem situações marcantes da nossa vida mas quando as conseguimos ultrapassar conseguimos muitas vezes exteriorizá-las e ao fazê-lo podemos sempre ajudar alguém.
Não existem vidas perfeitas. Cada pessoa tem a sua história e não se deve envergonhar dela.
As redes sociais dão uma noção de vidas perfeitas que muitas vezes frustram quem está do outro lado se não parar para pensar que nem tudo será um mar de rosas e que por detrás de uma bela fotografia pode estar uma vida num caos. Naturalmente que cada um coloca o que quer e está tudo bem, o que quero dizer é que não devemos iludirmo-nos, temos mesmo é de nos focar em tornar a nossa vida o melhor possível com todas as suas imperfeições e aceitá-las a todas.

Se na terça feira cheguei a alguma grávida, jovem ou não, que pela gravidez achou que os seus planos foram deitados por água a baixo, possivelmente ela possa ter percebido que a vida está em constante mudança, que não controlamos tudo, e o que parece muito mau num primeiro momento pode transformar-se na melhor coisa da nossa vida!
Não me vou pronunciar aqui sobre o aborto nem julgo ninguém mas tenho a certeza de que se o tivesse  feito isso ter-me-ia trazido danos irreparáveis para a minha vida e aí sim, tudo poderia descambar.

Depois a questão da depressão, que não consegui explorar muito, mas o apelo maior que quero aqui deixar é que se estão num estado depressivo ou com problemas psicológicos, procurem/aceitem ajuda! A depressão é uma doença que necessita de ser tratada, como a diabetes, o cancro, a hipertensão... É importante perceber que é aceitável que nos sintamos mal ( e muito importante também que quem  nos rodeia o aceite) mas que existem formas de tratamento que têm de ser accionadas como em qualquer outra doença.

No que respeita ao mundo fantástico mas desafiante que pode ser a maternidade a dica é só mesmo que de com amor e muita luta tudo se consegue. A vida deu-me duas opções ou eu a agarrava com unhas e dentes e tratava de ser feliz e fazer os meus felizes ou mergulhava na tristeza e lamentação que me impediriam de sorrir como hoje sorrio. Eu optei pela primeira, mas precisei de passar primeiro pela segunda para perceber que não era ali que queria ficar. Claro que não está sempre tudo bem, não é sempre tudo fácil, nem sempre tenho paciência... é como digo... a vida real!

Hoje sou exatamente aquela pessoa que viram na televisão, sem floreados, de coração aberto. Se foi dificil fazê-.lo? Um bocadinho,mas sinto que  valeu muito a pena. Espreitem um bocadinho do programa aqui e  aqui

Senti-me muito nervosa no momento da entrada, não há ensaios quando o assunto é a nossa vida. Antes de entrar, pedi à minha estrelinha mais cintilante no céu que estivesse comigo, e senti que esteve e me ajudou a passar a mensagem. Como eu gostava que ela me tivesse visto... Na verdade eu sei que viu, mas não pude abraçá-la no final... A ela dedico este meu percurso, porque também muito a ela o devo.  "Ai, se eu pudesse trazer-te de volta, nem que fosse só por uma hora..."
Beijinhos minha avó, daqui até ao céu!





terça-feira, 30 de junho de 2020

Balanço do nosso confinamento



Retomei hoje o trabalho presencial depois de três meses e meio em casa, em teletrabalho, com duas filhas com necessidades de apoio específicas, personalidades diferentes e exigentes, como na verdade o são todas a crianças.
Quem está ou esteve em teletrabalho sabe que não há horários, que muitas vezes trabalhamos mais do que se estivéssemos em modo presencial e que gerir isto com filhos pequenos em casa e em telescola pode tornar o cenário ainda mais caótico.
Houve dias em que a Francisca passou horas em frente à televisão, chegou até a falar português do brasil de tanto ver os vídeos que ela gosta e que eram os únicos que a mantinham distraída enquanto eu trabalhava.
Os emails da escola da Matilde com trabalhos de casa chegavam a todo o momento e se havia trabalhos que ela fazia com o centro de estudos via online, havia outros que tinham de ser feitos comigo porque eram manuais ou informatizados e confesso que chegou a mandar alguns depois da data estipulada. Sinceramente não sei quem ficou mais contente com o fim das aulas, se eu ou ela.
Sou muito grata por ter podido proteger as minhas filhas, nomeadamente a Francisca que pela T21 pertence ao grupo de risco, e ter conseguido realizar o meu dever em teletrabalho mas de facto foi desafiante. E se para mim o foi, imagino para aquelas mães e pais que começaram a trabalhar em maio, ou até que nunca pararam, e que depois de 12h de trabalho ainda tinham de confirmar emails da escola, ajudar a fazer trabalhos de casa, banhos, jantares, tarefas domésticas...

O que tenho a dizer como balanço do meu confinamento é que sobrevivi.... sobrevivi entre choros e gritos, beijos e abraços, dias em que tudo parecia fluir e outros em que nada corria como previsto!
A vida é mesmo isto, um carrocel de emoções e acontecimentos, que podem ser coloridos como o arco-iris ou cinzentos como um dia de inverno.  Para mim  guardarei na memória o vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, roxo e violeta.... e tirarei como aprendizagem tudo aquilo que foi assombrado pelo cinzento!





quarta-feira, 13 de maio de 2020

As mudanças para as quais a quarentena nos levou


O céu é o limite!




Como vos disse ontem, esta quarentena trouxe uma mudança muito grande para nós, uma decisão que foi muito difícil de tomar, que me tirou algumas horas de sono, me fez deixar cair muitas lágrimas, me trouxe um aperto no peito mas depois de tomada a decisão, já não olho para trás. 
Estar em casa em teletrabalho e com as miúdas tem sido um grande desafio e procurei, especificamente no caso da Francisca, proporcionar-lhe atividades de estimulação que lhe permitisse desenvolver ou, pelo menos, não regredir. Mas deparei-me com duas grandes dificuldades, a primeira (e maior)  é que a Francisca não estava motivada para trabalhar comigo, eu não estava sempre disponível para lhe criar um ritmo diário de trabalho porque eu não tenho horários e acabávamos as duas irritadas e frustradas. 
A outra dificuldade é que eu não sou terapeuta, não tenho conhecimentos para saber, num caso específico de atraso de desenvolvimento, quais os factores a trabalhar primeiro, qual a sequência suposta e prevista nas aprendizagens, que caminho seguir. Mas sabia que a minha filha precisava de mais estimulação, verifiquei por mim que tinha dificuldades em muitas àreas para as quais eu não estava desperta e que de facto isto foi confrontar-me com uma situação antagónica ao que eu até então ouvia de todos e eu própria queria reter, que é : a Francisca está muito bem. E está, mas há muito a trabalhar, a melhorar, a preparar antes da entrada na escola. Não consegui fazer esta constatação e não sentir um profundo sentimento de culpa por não ter dado mais, por ter relaxado e pensado que tudo o que já fazia era o suficiente e já exigia tanto de mim...


O mundo das terapias é muito vasto, não há um método que seja infalível, mas também sou de opinião que não há um método tão completo a nível de estimulação psicomotora como o método Doman. Contudo, há competências que a escola e a vida exigem que eu, por motivos de tempo, não estava a contemplar na estimulação da Francisca e aqui tive de fazer opções. Não posso, por vários motivos como a gestão do tempo meu e da Francisca (porque ela também tem de ser criança), conciliação das terapias e os seus elevados custos, manter dois métodos que na prática se poderiam complementar mas que não seria justo nem para nós pais e muito menos para ela querermos acumular mais um método de intervenção. Assim, depois de muito refletir e ter a certeza que o método Doman trouxe muitas vantagens daquilo que é a sua linguagem, compreensão, destreza motora, está agora na hora de trabalhar competências mais específicas de preparação para a escola e, consequentemente, para a vida.  Assim, parámos com o método Doman, deixamos para trás 5 anos consecutivos de um trabalho árduo nosso e das terapeutas, que nos deu frustrações mas acima de tudo muitas conquistas,  e a Francisca será agora acompanhada por uma psicomotricista especialista em reabilitação psicomotora do Centro de Desenvolvimento Infantil do Porto. Este será uma acompanhamento semanal feito pela psicomotricista que nos dá, semana a semana, elementos para trabalhar com ela com base nas suas necessidades e potencialidades.  Eu senti necessidade de ter alguém que me orientasse e que nos desse um acompanhamento contínuo e ao conversar com uma amiga a quem recorro sempre acerca das minhas ansiedades sobre a Francisca, porque ela sabe exatamente por experiência o que sinto, ela deu-me a indicação desta psicomotricista e eu estou muito confiante e o caminho acredito que seja este!
Talvez nem todos consigam entender a dimensão que esta decisão tem para nós mas acreditem que é grande, difícil, mas necessária e estamos confiantes. Como disse em cima, já não olho para trás.
A Francisca vai manter assim a fisioterapia( mas só a partir de setembro), a estimulação em casa e o infantário a tempo inteiro que lhe acrescentará também muito de positivo porque confio a 100% no trabalho e cuidado da educadora.

E pronto, posso dizer-vos que foi esta a maior aprendizagem da quarentena, a constatação de que às vezes é necessário parar, avaliar, olhar de frente as necessidades dos nosso filhos e tomar decisões que apesar de difíceis, são necessárias.

Pelo feedback que me chegou a querentena também vos trouxe mudanças positivas a nível de desenvolvimento pessoal, auto-conhecimento e até prática de um desporto ou atividade que descobriram vos dar bem-estar. Fico muito contente por isso, que saibamos sempre retirar das coisas negativas algo de bom. 

sábado, 18 de abril de 2020

O medo das consequências do isolamento












Confesso que nos últimos dias tenho vivido com algum nervosismo e ansiedade a pensar no desenvolvimento da Francisca.
Se por um lado desejo muito que tudo volte à normalidade e que ela retome todas as suas atividades (fisioterapia,  terapia ocupacional, estimulação cognitiva e motora, infantário) sei que mesmo que as coisas reabram gradualmente não é seguro recomeçar de imediato porque a doença não se vai erradicar de um momento para o outro, e pôr a saúde dela em risco para mim está fora de questão. 
Decidi que pelo menos até setembro ela não retoma nenhuma atividade, incluindo infantário,  mas o medo de que ela regrida é muito grande e sinto em mim a responsabilidade de garantir que isso não aconteça. 
Vou trabalhando com ela em casa, procurando fazer algumas atividades, mas não consigo fazê-lo o tempo todo porque também trabalho e porque ela não está predisposta a trabalhar comigo a toda a hora. A televisão e o telemóvel são tentadores quando tenho de trabalhar ou fazer alguma coisa, mas assusta-me este facilitismo ao qual eu cedo muitas vezes porque não me consigo desdobrar e ela não brinca sozinha por muito tempo. Não sei se serei a única mas eu não posso brincar com ela a toda a hora e além das terapias em casa que nos levam cerca de duas horas diárias, se eu fizer mais umas atividades por meia hora, sobra muito tempo das 14 horas em que ela está acordada. E não podemos ir à rua, ou não devemos e quando saímos eu fico super stressada porque ela mete as mãos no chão, depois passa na cara e eu só vejo o coronavirus nesses momentos, é um stress... Não podemos ir à praia, não podemos convidar um amiguinho ou família para vir cá brincar e portanto sinto que não lhe estou a dar tempo de qualidade, de aprendizagem, como ela teria em todos os contextos não fora este confinamento.
Depois na verdade eu não sou terapeuta e tenho pouca imaginação mas vou lá vou tentando inovar com algumas dicas que me têm dado. Se ela adere sempre? Por 5/10 minutos... o que é uma frustração...
Talvez muitos pais não sintam esta preocupação ou pressão  mas os pais de crianças com necessidades especiais entenderão, penso eu, a minha ansiedade. E já nem sei se sou eu já a ver coisas onde não existem mas acho que ela já regrediu na fala, quer falar tudo ao mesmo tempo e baralha-se toda!
Eu vou continuar a dar o meu melhor, na incerteza se será o suficiente!! 

domingo, 12 de abril de 2020








E assim passamos uma Páscoa  diferente mas igualmente especial. O que retiro deste desafio que se impõe é que podemos ser felizes com pouco e que  havendo saúde, depende de nós criarmos bons momentos. Depende muito da forma como encaramos o que a vida nos apresenta e embora tendo os meus momentos de ansiedade e medo, vou tentando adaptar-me ao que me é apresentado.
Claro que preferia ter estado com a família mais alargada e viver a tradição como sempre, mas não deixamos de viver um dia especial, com muita conversa,  brincadeira, um dia mais calmo e também de reflexão.
Hoje recebi uma mensagem muito especial de Boa  Páscoa que me dizia para fazer  renascer vezes sem conta o que de melhor tenho. Isto fez-me imenso sentido e é mesmo isso que eu quero fazer acontecer e é o conselho que quero aqui deixar.
Espero sinceramente que depois desta fase saiamos todos pessoas melhores, mais amáveis com o outro, mais educadas e que saibamos fazer um exercício muito difícil que tento sempre  adoptar em todos os parâmetros da minha vida: saber colocar no lugar do outro. E este  exercício não deve ser feito só agora em que vemos por exemplo enfermeiros, médicos,  bombeiros, auxiliares de ação direta e todos aqueles que saem de casa para trabalhar na linha da frente e pensar: que guerreiros! Se sentimos verdadeiramente isso é porque temos de alguma forma capacidade para nos colocarmos no lugar deles e pensar que se sacrificam a si, às suas famílias e põe em causa a sua saúde para garantir cuidados a quem precisa deles. Mas lembrem-se, eles ja faziam isso antes, dia após dia, noite após noite e havia quem não valorizasse, e ainda há quem trate com desdém e má educação (sei do que falo). 
Mas concluindo,  não querendo ser chata com esta minha reflexão, quero transpor para vocês o conselho que me foi dado: façam renascer vezes sem conta o que de melhor há em vocês e aproveitem esta quarentena para se trabalharem interiormente e tornarem-se pessoas melhores porque há sempre algo a melhorar.
Que no fim, além de ficarmos todos bem, fiquemos também melhores pessoas. O mundo precisa de menos rancor, menos ódio, menos stress,  menos inveja, menos maldade e mais amor, mais empatia, mais solidariedade, mais perdão.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O défice de atenção









Isto não é um artigo científico, é a opinião e o relato de uma mãe que dia a dia, ano letivo a ano letivo, luta contra as dificuldades inerentes a uma criança com défice de atenção.
Desde a pré-escolar que me diziam que a Matilde não se concentrava, não era capaz de levar uma tarefa até ao fim, que se distraía com dificuldade e que a primária poderia não correr bem. Desde logo eu afirmei que não lhe iria dar medicação e ela foi encaminhada para consultas de psicologia que concluíram apenas alguma imaturidade para a idade.
Entrou no primeiro ano e as queixas repetiam-se. Não estava atenta, estragava material, distraía-se com uma mosca...
No 2º ano a preocupação da professora era que ela fosse avaliada e trouxesse um relatório para justificar o insucesso escolar e, dessa forma, ressalvar-se enquanto profissional. Mas o que me preocupava verdadeiramente eram as dificuldades da minha filha, a sua auto-estima e auto-confiança que eram cada vez menores e eu sentia que tinha de agir.
Dei a mão à palmatória e aceitei consulta com a pedopsiquiatra e psicóloga que me deram o diagnostico de défice de atenção, sem hiperatividade Pedi mais do que uma opinião e todas eram consonantes. .
E aí entrou a medicação à qual eu tanto resisti. Inicialmente tentamos uma que não deu efeito e prolongaram-se os meses de insucesso, depois mudamos para outra à qual ela reagiu muito bem e o aproveitamento escolar melhorou significativamente e, por conseguinte e mais importante de tudo, a sua auto-confiança e auto-estima. A par disso mudei-a de escola porque o horário que tinha era da parte da tarde o que não era adequado para uma criança com défice de atenção e então as coisas passaram a correr muito melhor!
Agora no 5º ano, uma nova adaptação. Mantém-se a distracção, a dificuldade de memorização, o não saber onde deixou a carteira, o guarda-chuva, o cartão de acesso ao refeitório... Coisas normais de uma criança mas que com a agravante do défice de atenção se intensificam ainda mais. Às vezes sinto que a minha filha é uma incompreendida, e contra mim falo, mas sei que ela tem realmente dificuldades, temos de ter calma e aceitá-las. O insucesso escolar preocupa quaisquer pais mas a insegurança e baixa-auto-estima muito mais!
A medicação não faz milagres, ajuda, mas é necessário muito trabalho por trás, é preciso estudar com ela em casa aos domingos em vez de ir passear, é preciso fazer serões na véspera dos testes, é preciso tê-la num centro de estudos que a aceite tal como é e que trabalhe as suas dificuldades.
Com este trabalho todo acabou o 1º período com nota positiva a todas as disciplinas, sem testes adaptados. Enquanto conseguir resultados positivos sem adaptação nos testes assim os fará, se não conseguir cá estarei  para lutar por esse direito.
Para entenderem, falando mais cientificamente, as crianças desatentas apresentam dificuldade em manter a concentração em determinadas tarefas, não prestam atenção aos detalhes, parecem não entender as ordens ou instruções dadas, perdem objetos e distraem-se facilmente com estímulos sem importância.
 É uma perturbação do desenvolvimento caracterizada por um grau de desatenção inapropriado para a idade da criança, à qual se pode associar, ou não, hiperatividade e impulsividade.
Ocorre em diferentes contextos sociais, perturbando o desempenho da criança a nível pessoal e académico, sendo as principais consequências dificuldades de aprendizagem e problemas comportamentais. A causa é multifatorial, envolvendo fatores orgânicos (origem neurobiológica), genéticos e ambientais.  
Antes de julgar, e para conseguir ajudar estas crianças, é necessário compreender a situação. 








quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Início do ano letivo: uma aventura!





Cada início de ano letivo pressupõe à partida uma reorganização da dinâmica familiar. Aqui, normalmente, o papel de gestora familiar que é normalmente desempenhado pela mãe começa a vir ao de cima: definir horários, encontrar respostas na comunidade ou na família para apoio complementar, (re)inscrever nas atividades extra-curriculares, e mais uma vez redefinir horários... Programar o serviço de "taxi" para levá-los, ir buscá-los, acompanhá-los, quantas vezes forem necessárias ao dia.
É preciso mesmo louvar o papel das mães que além de terem todas as responsabilidades laborais e pessoais têm ainda esta gestão difícil de fazer a cada início de ano lectivo ou sempre que a necessidade do filho exija ajustes e mudanças. E pedir a terceiros, mesmo sendo família, procurar o melhor, pensar quem, quando e como não são assim tarefas tão fáceis quanto se possa pensar.
É de compreender que nesta altura as mães se sintam mais desgastadas, mais stressadas, mais preocupadas. Às vezes podem ser entendidas como exageradas mas o que querem é que tudo corra pelo melhor e quando o assunto é os nossos filhos fazemos o melhor que podemos não é?


 Já para não falar do stress e desgaste no caso daquelas crianças que ficam na escola a chorar, que acordam a dizer que não querem ir. Nunca me aconteceu mas deduzo mesmo que não seja fácil!


Eu tenho sentido todo este stress e ansiedade de início de ano letivo para poder conciliar horários escolares, terapias, dança, natação... é sempre necessário fazer um reajuste. Para vos dar um exemplo, para poder colocar a Francisca na natação com a escolinha tive que procurar alterar dois horários de duas terapias o que implicou a articulação com cinco pessoas ( a parte boa, é que tenho as melhores comigo e o interesse delas no melhor para a Francisca está sempre presente. Grata por isso).
A Matilde, é quem mais me preocupa, porque não verbaliza muito o que se passa, está sempre tudo bem, comeu bem, esteve atenta, brincou, aprendeu coisas novas e gostou. Isto é o que me relata, mas eu sei que a entrada no 2º ciclo não é fácil e receio que algo me escape. Mas vou com calma, estou atenta e estou sempre aqui para ela.

Venha mais um ano letivo!

domingo, 18 de agosto de 2019

Quando o rumo da vida foge aos nossos planos!






Pensei muito se escreveria sobre este tema mas não fui a primeira nem serei a última mulher que engravida sem querer e se puder com isto dar ânimo a outras mães,  já valeu a pena!
Tinha 21 anos, uma enorme vontade de acabar o curso e aproveitar a minha independência. Namorava há um ano com o Miguel e tínhamos muitos planos para o futuro próximo,  ter filhos e casar seria a longo prazo. Os meus pais fizeram um esforço económico muito grande para eu poder ir para a faculdade e o meu objectivo era com os meus primeiros salários pagar-lhes uma viagem! Mas quis o destino que o presente fosse outro.

Naquele dia sentia-me estranha e por já  haver algum atraso fui com uma amiga à farmácia comprar um teste de gravidez. Na verdade achei que não seria nada mas... Deu positivo! Fui comprar outro e embora me explicassem na farmácia que não havia falsos positivos, eu quis comprar e voltar a fazer.  Claro que deu positivo novamente. Eu não reagi, só pensei que iria desiludir os meus pais e deitar por terra o orgulho que sentiam em mim. E os meus planos para o futuro? E o que iriam falar as outras pessoas, principalmente as da minha aldeia? (Essas falaram de facto e coisas horríveis, feliz ou infelizmente soube de muitas, mas hoje é um beijinho no ombro para elas). Crescer num meio pequeno tem destas coisas...
Mas avançando....
Tinha de contar ao Miguel... nesse dia à noite contei-lhe. Choramos muito os dois, não sabiamos o que fazer, eu cheguei a pensar em não avançar com a gravidez mas ele nunca me deixou. Na verdade eu não o iria fazer por mim e seria um erro muito grande que traria danos irreversíveis na minha vida.
Decidimos casar, não tivemos dúvidas, ele prometeu que tranalharia e que teríamos o necessário.  Mas falatava o pior... contar aos nossos pais...
A maneira mais facil de o Miguel contar aos pais foi dizer-lhes que não iam ter um neto, mas sim dois ( a irmã dele já estava grávida). Parece que se riram e choraram ao mesmo tempo... não correu mal!
Faltava eu! Pedi ajuda à minha irmã. O meu pai trabalhava até as 22h e a minha irmã  foi lá a casa dizer à minha mãe que quando o meu pai chegasse queria falar com ambos. Claro que a minha mãe fez várias pergunas para tentar adivinhar o assunto e eu não  aguentei e comecei a chorar. Ela percebeu. Eu disse que queria ter o bebé e casar, ela nunca me negou a vontade mas disse-me que preferia que eu estivesse solteira e feliz do que casada e infeliz, e que me ajudaria a criar o meu bebé.  Na verdade ela não  conhecia muito bem ainda o Miguel e preferiu que eu tivesse bem a certeza do que eu queria. E eu tinha, queria casar e constituir a minha família!
Nos dias seguintes andei a fugir do meu pai, até que um dia não o consegui evitar e ele disse-me que nao precisava de fugir e que ia ajudar-me em tudo o que pudesse. E ajudou-me sim, deu-me um sítio para viver e garantiu que eu terminasse o curso.
Apesar de estar feliz com a gravidez havia uma parte de mim que estava a gerir a tristeza de ver por água a baixo todos os planos que  tinha feito para a minha vida, o esforço que sempre fiz e o objectivo de ter uma vida melhor.
Casei, não foi o casamento dos meus sonhos, com o vestido dos meus sonhos, mas foi com o mais importante: o homem dos meus sonhos.
A Matilde nas nasceu e no momento em que a puseram nos meus braços eu soube o propósito de tudo! Ela tinha de ser minha e foi realmente o melhor que me aconteceu na  vida. Tive de lutar muito, muito mais, tive de criar um filho e gerir uma familia apenas com um salário mínimo, tive que crescer e aprender muito sobre maternidade, doenças  internamentos e convulsões.  Mas em contrapartida ganhei muito mais, aprendi muito sobre amor e amizade.
E a lição final, mas a maior de todas é que nada na vida acontece por acaso.
Obrigada filha!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sobre o tempo que dedicamos aos nossos filhos...







Nao sei se será um sentimento que invade outros pais, o sentimento de que poderiam se dedicar mais aos seus filhos.
Na sociedade em que vivemos hoje, em que ambos os pais trabalham e que existem todos os dias as tarefas em casa para cumprir o tempo dedicado aos filhos, a disponibilidade, a vontade para brincar é muitas vezes reduzida. Os dias são alucinates, exigentes e os horários muitas vezes alargados e incompatíveis com o tempo das crianças.
Contudo, é importante reservar um pouco do nosso tempo livre para os filhos e dedicar-lhes esse tempo.  Realmente o que fica na memória da infância são as brincadeiras, os momentos significativos passados em família, o aconchego dos pais, os locais que visitamos, os piqueniques no parque, os passeios e as quedas de bicicleta...
Muitas vezes sinto que deveria dedicar-me um pouco mais às minhas filhas... não sei se há por aí pais que sentem  o mesmo, se há acusem-se, se não quiserem, reflitam apenas e façam como eu, desafiem-se a conseguir!

quarta-feira, 3 de abril de 2019

É asneira atrás de asneira!






Não sei se é da fase, da idade, dos suplementos alimentares que lhe passei a dar para um melhor desempenho intelectual, cognitivo e motor, a verdade é que a Francisca está imparável! Cheia de energia, "sai-se" com expressões que apanha da irmã ou nossas, está muito faladora e eu sei que isto é muito bom. Mas em contrapartida, está mesmo espevitada e só faz asneira atrás de asneira. E apesar de isto ter um quê de engraçado, preocupa-me um pouco porque às vezes é um pouco arisca e não cumpre ordens, ou faz coisas a saber que está a fazê-las mal como bater na irmã, puxar-lhe o cabelo, atirar coisas para o chão. Isto já é um pouco de mau comportamento e terei de passar a ser mais assertiva e rigorosa com ela. Em junho é a reavaliação pelo método Doman e já sei que as terapeutas vão focar o comportamento. E de facto investir num comportamento adequado é tão importante como investir em terapias. E porquê? Porque ela é uma criança como as outras e é assim que eu quero que seja vista e tratada e, por dever, não se deixam as crianças ter maus comportamentos sem que sejam repreendidas ou chamadas à atenção. Eu não quero a desculpa de "oh ela não entende" ou "é da trissomia" ou "eles são assim". Para já não é grave mas um dia na escola, em sociedade ou em qualquer contexto ela tem de saber estar e isso tem que ser trabalhado desde tenra idade.
Às vezes custa aplicar-lhe um castigo ou ralhar, na verdade custa muito e às vezes facilito um bocado mas eu sei que não posso facilitar!
Alguém por aí teve a mesma dificuldade com os filhos?